Artigos › 26/09/2017

Depressão: vamos conversar!

Limitações e fraquezas na vida do cristão

Provavelmente em algum instante já cometemos o engano de associar a limitação humana e suas necessidades ao mesmo que ser fraco, ser mau ou defeituoso. Para alguns existe a ideia de que ao nos tornarmos cristãos, desaparecem todos os limites e não temos mais necessidades. Mas, sabemos que na verdade, somos seres limitados e precisamos lidar a todo instante com as nossas fragilidades, a dos outros e superar os desafios que a vida nos propõe.

É importante lembrar que a origem das nossas limitações não está no pecado original, mas no fato de sermos criaturas. Em Gênesis 2,1-25 “(…) O Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só (…)”, vemos que o homem dorme, precisa de uma auxiliar ou ainda quando é proibido de comer o fruto, constatamos que o ser humano é limitado e possui necessidades.

Em relação às fraquezas, que são consequências do pecado original, podemos dizer que as foram deixadas para que através da luta contra elas, vivêssemos a caridade para com Deus e para com os irmãos. “No batizado, porém, certas consequências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, as fraquezas de caráter” (CIC, 1264).

Partindo do princípio de que os limites, as necessidades e as fraquezas são amorais, isto é, nem são bons nem são maus, uma vez que conseguimos ordena-los para o amor, com o auxílio da graça de Deus, podemos torná-los um tesouro precioso. Eis o nosso desafio! Ordenar as nossas fraquezas e limitações para o amor a Deus e aos irmãos. Todavia, sabemos que não estamos sozinhos nesta missão, “(…) Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,26).

A depressão

O excesso de apresso por si mesmo (narcisismo) difundido pela cultura atual, nos mostra que a tentativa de negar as limitações não são eficazes e as tentativas de tal ação nos mostram a outra face da moeda: a depressão e o medo do fracasso. Como “vivemos numa lógica baseada na equivalência, viver é igual aumentar e engrandecer a si mesmo, a limitação torna-se uma ameaça à conservação da autoestima, mais que a ocasião de verificação e o empenho renovado”[2]. A depressão surge não como causa primária, mas como consequência da atitude do ser humano em lidar com todas as situações inerentes a vida e a tentativa de evitar o fracasso ao extremo.

A palavra depressão derivada do latim “deprimere” significa afundar e tem estado em realce nos últimos tempos. Para nossa surpresa, ela é reconhecida como uma síndrome clínica há mais de dois mil anos e vem acompanhando a humanidade ao longo do tempo. Até hoje não temos uma explicação completamente convincente sobre a sua natureza, classificação e suas causas. E embora ainda divida opiniões entre os estudiosos sobre o assunto, a depressão é reconhecida por todos quando falamos em saúde mental.

Existe uma dificuldade de definir o que precisamente a palavra depressão significa, porque ela tem sido usada para expressar um determinado tipo de sentimento ou sintoma. É comum ouvir alguém dizer que está deprimido quando tem uma alteração de humor ou passa por um momento de tristeza transitório diante de um fato pontual. Na realidade, a depressão tem causado mais sofrimento do que qualquer outra das doenças que afetam o ser humano e precisa ser compreendida e prevenida.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a depressão como um transtorno mental comum, caracterizado por tristeza persistente e uma perda de interesse por atividades que as pessoas normalmente gostam, acompanhadas por uma incapacidade de realizar atividades diárias por catorze dias ou mais. Além disso, as pessoas com depressão normalmente apresentam vários sintomas, dentre eles se destacam: a perda de energia, alterações no apetite, dormir mais ou menos do que se está acostumado, ansiedade, concentração reduzida, indecisão, inquietação, sentimentos de inutilidade, culpa ou desesperança e pensamentos de autolesão ou suicídio.

Tratamento e ajuda

A depressão tem tratamento em graus leve, moderado ou grave e o tratamento vai depender de qual grau a pessoa tem baseado no diagnóstico do profissional. Torna-se cada vez mais comum o acompanhamento multidisciplinar dos pacientes, incluindo o acompanhamento espiritual que é muito eficaz, quando não é trabalhado isoladamente.

Por isso, se experimentamos esses sintomas ou conhecermos alguém que os experimentam, não devemos ter medo de conversar sobre o assunto e procurar ajuda. Não podemos tratar a depressão como algo supérfluo e que não mereça atenção, pois as perspectivas e chances de cura aumentam a cada dia, de acordo com a especificidade de cada pessoa e sua forma de lidar com a doença.

A fé e a depressão

Para a fé cristã o sofrimento é um problema teológico bem explorado, no sofrimento e nos males que experimentamos ao longo da vida, a bondade de nossa existência é questionada. O sofrimento entendido muitas vezes como uma desgraça, quando vivido sob a graça, nos faz experimentar que o amor de Deus é ânimo e alento para as dificuldades da vida. Devemos fazer como Santa Benedita da Cruz, “quanto mais escuridão se faz ao nosso redor, mais devemos abrir o coração à luz que vem do alto”, e acreditar que a fraqueza do ser humano é o lugar que se manifesta o poder amoroso de Deus.

Quando São Paulo afirma, “Pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,9-10), nos ensina a ter consciência de nossas fraquezas e tornarmos fortes diante da depressão e das diversidades e flagelos da vida. Em uma das suas homílias, o Papa Francisco destacou que “na vida do cristão há momentos escuros, sem fé, onde sentimos que já não somos capazes de nos levantar; mas afirmou que é aí que Cristo nos reconforta e diz ‘levanta e anda’, nos exorta a ficar de pé e a caminhar”. Sejamos cristãos corajosos, ancorados na esperança e capazes de suportar momentos difíceis.

 

[1] Bruno Oliveira é seminarista da Diocese de Duque de Caxias. Graduado em Fisioterapia pela Universidade do Grande Rio e em Filosofia pela Universidade Católica de Petrópolis. Atualmente cursa o segundo ano de Teologia também na Universidade Católica de Petrópolis.

[2] CENCINI. Amedeo. Viver Reconciliados: Aspectos psicológicos. São Paulo-SP: Paulinas, 2005.

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