O evangelho deste domingo, chamado o domingo da hospitalidade Lc 10, 38-42 nos narra a acolhida que Marta e Maria dão a Jesus. Se acolher é sinal de fidelidade ao novo mandamento, hospedar o outro é hospedar o próprio Cristo: “Tudo o que tiverdes feito a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes” (cf. Mateus 25, 35-36).
É bom notar que esse texto vem logo após a narrativa do bom samaritano que meditamos na semana passada e nos mostrava como o caminho da vida eterna é o caminho do amor a Deus e ao próximo, deixando bem claro que o próximo é todo aquele que passa por uma situação de necessidade e que clama por solidariedade. Não se trata de palavras mas de gestos concretos de cuidado, de atenção, de sensibilidade, de parada para acudir, gastar tempo com o outro na gratuidade, poderíamos dizer que é fazer bem o bem que somos chamados a fazer.
O texto é muito simples e breve, descreve o modo diferente e complementar de Marta e Maria acolher Jesus. Marta toda atarefada em preparar a comida e Maria sentada aos pés de Jesus escutando-o. E Jesus acaba dizendo a Marta que se preocupa com muitas coisas e que Maria escolheu a melhor parte.
A finalidade de Lucas é mostrar duas atitudes, ambas importantes, no acolhimento de Jesus: o serviço generoso de Marta e a escuta atenta de Maria. Jesus não diz que uma fez certo e a outra errado. A tradição cristã sempre viu nelas duas atitudes igualmente necessárias e complementares: a ação e a contemplação; o serviço da palavra e o serviço generoso e solidário ao próximo.
O discipulado não é só serviço aos outros, por mais importante que seja, mas também dedicar tempo para ouvir a palavra do Mestre e dele aprender continuamente. Esse é o sentido do estar aos pés de Jesus. Era o que faziam os discípulos no judaísmo do tempo de Jesus.
O evangelista Lucas (único que narra esse fato) não pretende contrapor a contemplação de Maria e a ação de Marta, mas ressaltar a atitude essencial e distintiva do discípulo/a, ou seja, a escuta da palavra do Senhor é condição para que o serviço não se torne estéril agitação. Lembremos que num outro texto Jesus declarou “felizes os que ouvem a palavra e a põem em prática”.
São várias as mensagens que podemos tirar para nós desse breve texto. Primeiro que os afazeres da casa, a preocupação em servir bem é uma coisa boa, mas não deve impedir de buscar o crescimento na fé, obtido especialmente pela escuta e meditação da palavra. Quantos irmãos e irmãs nossos católicos dizem não participar das celebrações da comunidade e dos encontros de grupo porque não tem tempo. Não esqueçamos que tempo é questão de prioridade. Para aquilo que se valoriza se acha tempo. Essa desculpa não gruda mais, precisa achar outra. E eu pergunto: é falta de tempo ou pouca fé?
É bom hospedar e cuidar bem das pessoas. Lembremos o belo fato da vida de Abraão que sem saber acolhendo bem os hospedes, recebe a benção de Deus, a graça da fecundidade. Como diocese, nos encontramos numa situação privilegiada, temos uma ocasião constante de exercermos a hospitalidade. São muitas as pessoas que passam por nossas comunidades, especialmente as marítimas.
Nossa hospitalidade e bom trato com os veranistas é o melhor marketing que podemos fazer, desde que os acolhamos como pessoas, irmãos e irmãs nossos e não como simples consumidores. E as pessoas percebem o espírito que nos anima quando se encontram conosco.
Mas o mais fundamental é acolher o dom que é a palavra de Jesus. Por isso Ele afirma: “Uma só coisa é necessária e Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”. Se perseverarmos nessa escola, como discípulos do Mestre Jesus, aprenderemos dele não só a forma correta de acolhermos, mas também o jeito de evangelizarmos, comunicando pelo encontro pessoal a fé cristã que liberta e salva.
A palavra de Deus, revelada em Jesus, é o pão da vida. Quando a escuta da Palavra está acima de qualquer interesse, a vida se propaga espontaneamente e o Reino de Deus acontece.
É bonito dar-se conta e reconhecer que todos temos um pouco de Marta e de Maria: desejo de fazer e ao mesmo tempo saber que sem Deus nada podemos fazer. Com S. Paulo, acreditamos tudo poder naquele que nos fortalece: Cristo Senhor!
|