Publicações › 01/11/2017

Por uma relação entre inteligência da fé e racionalidade científica no contexto atual

RESUMO

Por Pe. Tiago de Fraga Gomes*

Como trabalhar a inteligência da fé em um contexto extremamente secularizado e dominado pela racionalidade científica e instrumental? A teologia enquanto inteligência da fé e ciência hermenêutica da revelação de Deus na história, mais do que nunca, precisa justificar seu status científico diante de uma mentalidade empírico-experimental. Mesmo que a teologia assuma o limite de ser, como diz Claude Geffré, “um discurso sobre uma linguagem que fala humanamente de Deus”, e mesmo que reconheça que a economia da revelação não pode ser objeto de experimentações com vistas a comprovações laboratoriais, porém, precisa provar que não está em contradição com a racionalidade científica, mas antes, tem seu próprio estatuto epistemológico.

Para Marcelo Caldana, o que acontece, é que muitas vezes o cientista não conhece as Escrituras e a mensagem teológica da religião, e o teólogo permanece ignorante quanto às conquistas realizadas pela ciência. Além disso, para permanecer imparcial em seus posicionamentos, o cientista acaba optando por uma postura não só agnóstica, mas também ateia. Esse ceticismo acaba por constranger o teólogo e a comunidade de fé. Porém, muitos teólogos, preferem acolher os avanços da ciência, pois partem da premissa de que toda verdade não pode estar em contraposição com a verdade de Deus. Por isso, tentam acomodar os resultados das pesquisas científicas aos dados da fé. Toda redução unilateral, seja das ciências à teologia, como aconteceu no medievo confessionalmente homogêneo e teocêntrico, quanto da teologia às ciências, como o ocorrido na sociedade iluminista e positivista, consiste numa redução que desconsidera as identidades e os enfoques em sua especificidade.

A ciência está cada vez mais se desenvolvendo e ampliando as suas pesquisas. Segundo Wilmar Barth, “as descobertas científicas elucidam cada vez mais o universo e favorecem o amadurecimento da fé e do próprio conhecimento.” A religião não se coloca contra a ciência, porém, não se limita aos seus moldes. Ciência e religião podem colaborar uma com a outra. A religião, por exemplo, pode ajudar a ciência a buscar a sabedoria, pois nem tudo o que é tecnicamente possível, é eticamente praticável. É preciso discernimento e empenho do conhecimento em favor da vida. De acordo com Jürgen Moltmann, “nem todo saber serve à vida, nem todo conhecimento nos torna sábios.” O domínio humano unilateral e instrumental emudece a natureza e esvazia o ser humano.

Segundo Urbano Zilles, é necessário esclarecer que “ninguém, a rigor, crê ou deixa de crer em Deus por causa da ciência. De maneira análoga, ninguém deixa de ser cientista por causa da fé ou descrença.” Enquanto o cientista trabalha no nível específico da racionalidade experimental, o crente está envolvido em uma dinâmica mais profunda e globalizante, que envolve as dimensões da racionalidade reflexiva, das crenças e das emoções. Blaise Pascal já dizia que “o coração tem suas razões que a razão não conhece.” No entanto, o racionalismo ocidental moderno, reduziu o ser humano à dimensão da razão. No Discurso do método, René Descartes cunhou a expressão lapidar cogito, ergo sum (penso, logo existo) como a evidência primeira e a mais clara das verdades, protagonizando uma mudança paradigmática. A ciência moderna tem a pretensão cartesiana de reduzir tudo à racionalidade, como se não houvesse outras dimensões constitutivas do ser humano. Com Descartes, o que aconteceu não foi propriamente uma virada antropocêntrica, mas sim, uma virada raciocêntrica, que supervalorizou a razão.

Diante da prepotência racionalista e cientificista, John Haught adverte que é preciso lembrar que “é da própria natureza da revelação situar-se além do escopo da certificação científica.” A transcendência excede o campo da ciência. O Deus da fé revelada não pode ser objeto de controle experimental, nem pode ser submetido à dominação científica. Segundo Urbano Zilles, “as ciências modernas não provam nem negam a transcendência do homem nem a existência de Deus.” As pesquisas científicas se enquadram nos parâmetros da delimitação e da parcialidade, não tocam o Absoluto Totalmente Outro, nem mesmo solucionam as questões globais ou do sentido da vida. A fé e a ciência são duas grandezas que operam na história da humanidade. Porém, como afirma Édouard Boné, desde o Renascimento e a subsequente revolução científica, o equilíbrio entre essas duas forças foi afetado, estabelecendo-se um conflito violento, ao invés de uma complementaridade integral. Atualmente, o senso comum tem uma imagem bastante simplista e caricatural a respeito da ciência, como se os descobrimentos científicos fossem o produto de procedimentos teóricos claros e inequívocos, resultando desse processo uma verdade científica inquestionável. Porém, segundo John Polkinghorne, a realidade é mais complexa e interessante do que isso.

Entre fé e razão não há contradição, mas complementaridade. Cada instância precisa ser considerada e respeitada nas dimensões em que atua. Enquanto que a fé diz respeito ao âmbito da transcendência, a razão e a ciência situam-se no campo da imanência. Não é possível estender a ciência à transcendência, nem reduzir a fé à imanência. As duas sairiam descaracterizadas. Porém, há a possibilidade de diálogo entre ambas, e como todo bom diálogo, é fundamental que se respeite a alteridade irredutível dos interlocutores.

* Doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS. E-mail: tiago_mail@yahoo.com.br

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