Publicações › 01/11/2017

Diálogo ecumênico, promoção humana e busca da paz

RESUMO

Por Pe. Tiago de Fraga Gomes*

Cotidianamente a humanidade experimenta uma situação de guerras, violência, exclusão social e desastres ecológicos. Ao invés de colocar-se no lugar do outro para compreendê-lo e edificá-lo, pretende-se muitas vezes tomar o seu lugar, anulá-lo e vencê-lo. É possível perceber no ser humano uma inclinação para o mal, para o pecado, que se faz visível nas relações deturpadas por uma gritante desigualdade, e por uma injustiça insensível e egoísta. Infelizmente, a convivência entre os cristãos muitas vezes não difere disso. O Concílio Vaticano II (1962-1965) afirma que a divisão entre os cristãos “contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo” (Unitatis Redintegratio 1), pois é um anti-testemunho contra a unidade e prejudica a causa da pregação do Evangelho a todas as pessoas.

O objetivo desse artigo consiste em explorar algumas contribuições do diálogo ecumênico para a promoção humana e a busca da paz. Segundo Elias Wolff, “a divisão provoca nos cristãos sérias dificuldades para o reconhecimento do verdadeiro Cristo”, pois se corre o risco de se apresentar apenas facetas ou vultos fragmentados do mesmo. “A divisão cristã é uma realidade dramática” que urge por uma nova concepção identitária que prescinda de uma perspectiva controversa, polêmica e apologética, para abraçar uma postura mais fraternal e dialógica. Pretende-se nesse estudo apresentar alguns elementos constitutivos do pensamento e do diálogo ecumênicos, para em seguida, elaborar uma relação entre ecumenismo, promoção humana e busca da paz.

Pensar ecumenicamente requer a superação de alguns paradigmas: a) Indisposição para entender as razões do outro: mal entendidos e hostilidades como expressão de posturas radicalmente unilaterais e obtusas, estão na raiz de muitas das acusações mútuas as quais prejudicam a compreensão e a vivência integral do Evangelho da caridade. b) Indisposição à crítica: quando os debates se destinam a ratificar um posicionamento prévio e irredutível, no intuito de fazer que o outro se conforme ao já estabelecido e se retrate de seus erros, assim não é possível crescimento sincero que amplie a compreensão humana da verdade. c) Indisposição para a mudança de opinião: o medo exagerado de uma ortodoxia “heresiofóbica” pode encarar toda voz dissonante como heterodoxa ou herética, e por isso, manter-se na prepotência acrítica das próprias opiniões pode ser um subterfúgio ao medo da novidade, tendo presente que o Evangelho é a grande Boa Nova que exige conversão e mudança de vida, a fim de superar o pecado, causa de toda divisão, na busca de um aggiornamento de nossa existência em consonância com o projeto de Deus.

Claude Geffré propõe três condições fundamentais para o diálogo ecumênico: a) Respeitar o outro em sua diferença, ou seja, em sua identidade própria e peculiar; b) Fidelidade à própria identidade; c) Reconhecer certa igualdade entre os interlocutores e buscar uma base ou critério comum sobre o qual os parceiros poderão estabelecer uma plataforma de relações, a fim de proporem um acordo. Essas são condições imprescindíveis para o diálogo.

A cultura do encontro proposta pelo Papa Francisco constitui um cenário eclesial propício para o diálogo ecumênico em busca da paz. Urge superar a divisão atual entre os cristãos. Para isso, faz-se necessário desconstruir antigos preconceitos e discriminações, para que se abram novas possibilidades de aproximação e cooperação. Os cristãos enquanto anunciam o “Evangelho da paz” (Ef 6,15), devem estar abertos a uma mútua colaboração, a fim de que sejam instrumentos de pacificação e testemunhas credíveis de uma vida reconciliada, privilegiando uma cultura do diálogo como forma de encontro, e a busca de consensos e acordos para conviverem em comunhão.

Segundo Rudolf von Sinner, três valores podem ajudar em um empenho ecumênico em busca da paz: confiança, esperança e serviço. O Senhor chama os cristãos a edificarem uma ética da confiança mútua, que supere as desigualdades e abra espaços de inclusão, partilha e de bem-estar integral, pois não existe paz senão na base da mútua confiança. A esperança é a visão norteadora da missão cristã. Graças à esperança, é possível acreditar na transformação, ou seja, em outro mundo possível. O serviço é o contraponto ao sucesso e a competição mundana. A cooperação entre os cristãos no serviço à promoção humana e à busca da paz é o princípio e a culminância do empenho ecumênico.

Entre ecumenismo, promoção humana e busca da paz há uma ligação profunda, pois não há fé autêntica que não se converta em práxis libertadora. Os cristãos estão cada vez mais convictos da sua responsabilidade como testemunhas vivas de um Deus libertador que se envolve na história humana. Segundo Claude Geffré, os cristãos devem estar sempre dispostos a colaborar entre si e com todos os homens de boa vontade em prol da “edificação de um mundo menos desumano, no qual os direitos inalienáveis de todo homem à liberdade, à dignidade e ao trabalho sejam reconhecidos.” Os cristãos têm uma missão ecumênica na ordem do testemunho, a fim de que o Evangelho seja encarnado em cada contexto histórico, a partir das opções e do empenho de todos e de cada um em favor da urgência da evangelização.

* Doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS. E-mail: tiago_mail@yahoo.com.br

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