Publicações › 01/11/2017

A pastoral urbana como desafio para a evangelização

RESUMO

Por Pe. Tiago de Fraga Gomes*

A Sagrada Escritura inicia em um jardim e termina em uma cidade. “A última palavra da revelação é o nome de uma cidade, a nova Jerusalém. O último ato da história divina é a manifestação da cidade de Deus” (Comblin). As destinatárias do Apocalipse são grandes cidades: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia, Laodicéia. Segundo o livro do Apocalipse, toda cidade é santa (Ap 21,2) e é morada de Deus entre os homens (Ap 21,3). Em toda cidade há um “mais” a descobrir, um “novo” a encontrar: Jesus Cristo ressuscitado. Porém, em toda cidade Jesus é condenado à morte, há escravidão como no Egito, há depravação como em Sodoma, há perversidade como na Babilônia. No fundo, toda cidade tem Caim como fundador, mas tem Cristo como destino final.

A vocação da cidade é negada por Caim. Por isso, é uma vocação ainda pendente. Cabe a Cristo cumprir esta tarefa e aos cristãos a colaboração, através da vivência da misericórdia e da samaritanidade, como atitudes de cuidado aos “Abéis” frágeis, no anseio de superação do fratricídio genesíaco. Cristo nos envia a proteger os “Abéis” fracos e sem poder. O Reinado Urbano de Deus são os cristãos que estão criando cultura, pela linguagem da misericórdia e da samaritanidade, pelas quais é possível uma cidade renovada (DAp 491, 517; Lc 10,25-37).

Há inúmeras metáforas para falar da cidade, caracterizando-a como: mercado (Weber), organismo vivo (Durkheim), fruto das revoluções (Marx), exacerbação dos sentidos (Simmel), trajeto antropológico (Durand), domesticação do tempo e do espaço (Norbert Elias) ou mesmo espírito de liberdade (Rousseau). Na realidade, as pessoas articulam cada um desses aspectos cotidianamente. Como desafio, é preciso “humanizar a cidade, colocá-la a serviço do homem” (Comblin), pensar a cidade desde o seu sentido de ser, e se questionar sobre o que tem razão de recomeçar, e onde se deve investir e empregar os esforços para transformá-la.

O grande obstáculo da pastoral urbana são o medo e a falta de abertura diante do novo. Em geral, há a tentação de se fechar nos velhos métodos, numa atitude defensiva ante a evolução agressivamente veloz e desconcertante da cultura e da sociedade. A evangelização necessita de pessoas ousadas e corajosas, que falem uma língua que as pessoas entendam. Não bastam adeptos. É prioritário que se formem discípulos missionários a partir da experiência da vida em comunidade, e isso acontece na contramão de uma pastoral individualista e privatizada. É imprescindível fomentar relações espontâneas e informais, e práticas de convívio, evitando o imediatismo e o individualismo.

A pastoral urbana precisa priorizar: a) O fortalecimento de comunidades eclesiais de base, nas quais as pessoas se sintam acolhidas e valorizadas, sendo possível celebrar uma liturgia mais encarnada, espontânea e vibrante; b) Valorização dos sacramentais como as bênçãos e os sinais sagrados, em uma reação ao secularismo e ao cientificismo; c) Acolher, incentivar e orientar de maneira saudável a religiosidade popular, com suas devoções, cultos, procissões e gestos simbólicos; d) Desenvolver uma teologia centrada no Reinado de Deus e atenta à vida das pessoas e da sociedade; e) Fazer presença junto aos meios de comunicação social, evitando toda forma de mercantilização e banalização do sagrado; f) Dar uma atenção especial e criativa à evangelização junto às periferias existenciais da urbanidade.

 

* Doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS. E-mail: tiago_mail@yahoo.com.br

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